Dizer que os OVNI e os extraterrestres são parte integrante da cultura popular ocidental, se não mesmo mundial, desde meados do século XX, é algo praticamente autoexplicativo e naturalmente consensual.

Seja qual for o estrato etário, o nível sociocultural ou académico, o registo de crenças, falarmos de “disco voador” ou de “marciano”, de “homenzinhos verdes”, de “OVNI” ou de “extraterrestres”, dos “cinzentos”, de “abduzidos” (horrível anglicismo, aliás) e mais recentemente de “UAP” terá quase invariavelmente como reação o “acredito” ou “não acredito”, raramente uma qualquer manifestação de surpresa.

Mistério dentro do mistério, como sempre, quando depois procurarmos encontrar na cultura popular os elementos correspondentes à comunicação entre os relatos de observações de OVNI e seus eventuais ocupantes com a superestrutura cultural, o reflexo destes lugares-comuns da nossa sociedade na produção cultural, muito em particular na que recorre à imagem, acabamos por obter resultados, pelo menos, curiosos.

É claro que “A guerra dos mundos” de H. G. Wells, publicada originalmente no Reino Unido em 1897, se trata de um exemplar precoce e particularmente precursor do tema dos marcianos e da sua vinda ao planeta Terra.

O interesse crescente sobre Marte, ao menos nos meios mais informados, nomeadamente em consequência da divulgação pública dos estudos de Schiaparelli e de Lowell, entre outros, não surge do acaso, antes resultando do facto de em 1877 o planeta nosso vizinho se ter encontrado numa oposição particularmente próxima à Terra, facilitando a sua observação. Mas o livro de Wells é também fruto da evolução positivista tecnológica de oitocentos, geradora de meios bélicos cada vez mais sofisticadamente destrutivos, fazendo adivinhar as novas, espantosas e cruéis guerras que viriam a marcar em termos mundiais a primeira metade do século XX, que o autor acaba por antecipar alegoricamente no embate com os marcianos. Os quais acabam por ser vencidos, basicamente, como os europeus dizimaram as populações ameríndias. Toda uma outra história, claro está.

Regressada a paz depois da segunda guerra mundial, com o fantasma do nuclear a ganhar impulso a cada dia, na antecâmara da guerra fria, logo a 24 de junho de 1947 verifica-se a observação de Kenneth Arnold (nas montanhas Cascade, Estado de Washington, EUA), durante a qual este empresário e piloto amador vê a partir do seu avião, em voo, uma formação de nove objetos brilhantes voando a grande velocidade, que descreveu como deslocando-se “like a saucer would if you skipped it across the water”. Cá estão os discos voadores – flying saucers, trazidos rapidamente a público pela comunicação social.

E em 1947, poucos dias depois temos Roswell, mas essa é também, em boa verdade, toda uma outra história.

Enfim, em traços muito gerais e algo simplistas, cá temos marcianos e discos voadores, solidamente implantados na cultura popular mundial, entre os finais do século XIX e meados do século XX.

Já agora, importa notar que a ficção se tinha antecipado a Kenneth Arnold ou então os referenciais da cultura popular estimularam a sua percursora descrição dos objetos voadores que observou, pois já em 1929, na edição de novembro da revista “Science Wonder Stories”, a capa desenhada por Frank R. Paul exibe inegavelmente um disco voador.

Também nas três primeiras décadas do século XX, encontramos histórias, algumas delas em banda desenhada, nas quais os heróis terrenos viajam pelo sistema solar, confrontando-se (as mais das vezes à letra) com seres extraterrestres, marcianos, jupterianos e outros, alguns dos quais caracteristicamente verdes. Flash Gordon, Buck Rogers, John Carter (este último de Edgar Rice Burroughs) são disso exemplo.

Parece inegável que as testemunhas de OVNI, OVI (objetos voadores bem conhecidos, mas mal interpretados, por pessoas de boa fé) e mesmo toda a sorte de mentirosos, lunáticos e crentes dispunham de uma amplíssima base cultural e, em boa medida, iconográfica para modelar as suas descrições de estranhos objetos celestes e, sendo o caso, dos seus ilusivos ocupantes.

Chegados a este ponto, para podermos avançar um pouco mais importa traçarmos uma linha divisória clara. O que nos importa, verdadeiramente, são os relatos de objetos voadores não identificados nos céus da Terra e a magna questão de saber se em algum momento (no passado distante ou na atualidade) seres extraterrestres, intraterrestres, viajantes do tempo ou interdimensionais efetivamente deixaram a sua marca no planeta Terra.

Deixemos assim de parte tudo quanto a ciência e a ficção (e é muitíssimo!) nos têm dado acerca das viagens espaciais e da vida fora o planeta terra, com inegável e interessantíssimo reflexo na cultura popular contemporânea. Acresce que o tema da vida extraterrestre é atualmente matéria científica mainstream, pois embora ainda não tenhamos a prova material, final e inquestionável, de um ponto de vista conceptual ninguém defende hoje seriamente que a vida seja um acidente único do nosso planeta, ainda que o problema das civilizações extraterrestres e, principalmente, da viabilidade de contacto com os seres humanos terrestres motivem toda a sorte de dúvidas e uma terrível dificuldade de solução. Há um manancial sem fim de exemplos da cultura popular contemporânea relativos à vida extraterrestre, nomeadamente em todos os domínios da ficção científica. Pela terceira vez, contínua a ser uma outra, ainda que interessantíssima, história.

Queremos permanecer completamente focados no que mais desperta a nossa curiosidade e imaginação: OVNI e, eventualmente, extraterrestres, mas por cá, na Terra, entre nós, bons, maus ou simplesmente desconcertantes. O lado do mistério, portanto, que nos apaixona e, eventualmente, aterroriza.

É a cultura popular que molda a descrição do fenómeno, quando não do sonho? Ou são os factos, o pensamento e, claro, o sonho que vão moldando a produção cultural, no que a OVNI e ovninautas diz respeito?

Fui procurar na minha biblioteca, muito em particular na banda desenhada, álbuns e revistas, que ocupavam um lugar essencial na minha vida diária quando comecei a interessar-me pela ovnilogia e dei com o quê?

Walt Disney, claro, onde discos voadores e extraterrestres, de várias sortes, aparecem com regularidade. Incluindo um curiosíssimo viajante espaciotemporal que dá pelo nome de Esquálidos (originalmente Eega Beeva), provavelmente menos conhecido, mas que amplia substancialmente o campo dos visitantes e do tema, fulcral, da sua origem. Luc Orient, com os viajantes de Terango, meteoros venenosos e o excelente “24 horas para o planeta terra” (tradução direta do título original, tal como tudo o mais que se refere adiante sem outra menção). Um “Ovnis em Talmourol” (Du cidre pour les étoiles) do Spirou, já da fase pós-Franquin e que não me agrada particularmente.

Uns piscar de olhos, interessantes ainda assim, no “Voo 714 para Sidney” do Tintim e, de alguma forma, em “S.O.S. no espaço” de Dan Cooper”.

E, claro, a magistral trilogia de Jacques Lob e Robert Gigi “O dossier dos discos voadores”, “Vindos do desconhecido” e “O.V.N.I., dimensão nova” (Le dossier des soucoupes volantes, Ceux venus d’ailleurs e O.V.N.I. dimension autre). Autênticos compêndios de ovnilogia para qualquer aspirante investigador dos anos 70 e 80 do século passado. Fazendo um perfeito pendant com outra trilogia, essa em forma de ensaio, que nos acompanhava em todas as ocasiões: de Henry Durrant, “O livro negro dos discos voadores”, “Os estranhos casos dos OVNI” (Les dossier des OVNI) e “Primeiras investigações sobre os humanoides extraterrestres”.

Autor(a): Jacques Lob e Robert Gigi

Editora: Meribérica/Liber

Género Literário: Banda desenhada

Ano: 1980

O cinema e as séries televisivas, ainda assim, dão-nos uma quantidade mais substancial de exemplares relevantes da cultura popular ufológica.

É inesquecível o disco voador de Forbidden Planet (1956). Está mesmo na época histórica certa, visto que 1954 é o ano de todos os OVNI, a que talvez se possa considerar a vaga original, assim nomeada, e um pouco por todo o mundo. Fora esta ligação umbilical, na verdade este disco voador está fora do nosso tema, pois trata-se da nave United Planets starship C-57D e a ação passa-se num planeta distante, Altair IV.

O magistral “2001, uma odisseia no espaço” de Kubrick (1968), que em vez de simples visitantes do espaço, confronta-nos com os extraterrestres criadores de mundos, migrados para uma existência comunal tecnológica (o monólito) que interfere na evolução dos primatas hominídeos (dirige-a?), desde os seixos facetados às viagens interplanetárias e, de alguma forma, interdimensionais.

Não será a mesma coisa, nem servirá os mesmos propósitos, mas não deixa de haver aqui uma ligação com os deuses astronautas e mistérios primi-históricos, logo a começar pelo filme-choque de Erich von Daniken “Eram os deuses astronautas“ (1970) – que vi exibido em Portugal, bem a propósito, na sala satélite do cinema Monumental, filme este realizado na sequência do livro de 1968 do mesmo autor (Chariots of the Gods?).

Afinal os extraterrestres sempre cá estiveram, desde os mais profundos abismos da história terrestres, sendo a humanidade sua filha ou, pelo menos, sua criação e macroexperiência? Os deuses astronautas por cá continuam, aparentando boa saúde, em sucessivas séries documentais sempre presentes na televisão por cabo.

Se procurarmos em qualquer listagem de filmes encontramos, desde os anos 50, uma sequência considerável de obras sobre discos voadores e OVNI, valendo a pena referir Plan 9 from Outer Space (A morte veio do espaço), de 1959, um filme de Ed Wood que ganha a palma como filme de terror de culto, pese embora o seu baixo orçamento e muito discutível qualidade.

The Thing (em Portugal “Veio do outro Mundo”), na sua versão de 1982 realizado por John Carpenter, recupera o terror absoluto dos extraterrestres, uma vez mais, provavelmente desde há muito anos, escondidos algures na Terra, aguardando pela sua oportunidade para, pura e simplesmente, tomarem de assalto os nossos corpos. O filme tem um antecedente dos anos 50 (The Thing from Another World (1951)), mas valerá a pena o pequeno espanto de nos lembrarmos que se baseia, na verdade, na novela de John W. Campbell Jr. Who Goes There?, publicada na revista Astounding Science Fiction em Agosto de 1938. Teremos de revisitar séria e profundamente esta produção literária anterior aos anos 40, que antecipa e, possivelmente, é precursora do fenómeno OVNI que conhecemos a partir de 1947.

Carpenter regressou posteriormente ao tema dos extraterrestres entre nós em They live (Eles vivem), de 1988. Os extraterrestres, para além de estarem na Terra, são ocultamente uma classe dominante, que manipula sistematicamente os pobres humanos. Até que alguém os consegue ver através das lentes corretas. A metáfora política não poderia ser mais perturbante, nos estranhos tempos que vivemos, por meados dos anos 20 do presente século. E reabre o caminho para a proliferação das conspirações.

Da perspectiva do estudo científico do fenómeno OVNI e do tema de fundo do contacto com as civilizações extraterrestres, em 1977 chega-se a um patamar essencial da aceitação mainstream em “Encontros imediatos do terceiro grau” de Steven Spielberg. A própria expressão que dá título ao filme corresponde aos resultados da investigação científica sobre OVNI, da autoria de J. Allen Hynek, professor de astronomia, consultor da USAF (Project Blue Book) e conselheiro técnico do cineasta durante a realização deste filme. O terceiro grau é a observação direta dos ocupantes de um OVNI, que neste caso são indubitavelmente extraterrestres e querem amistosamente – depois de terem andado a raptar gente durante um rol de tempo – contactar os humanos.

Acaba por corresponder a um culminar do interesse público quanto aos OVNI, ao qual vem a seguir-se a frustração do mistério persistir, sem extraterrestres à vista.

Spielberg ainda insiste com o amistoso e carente “E.T., O extraterrestre” de 1982, e o tema do contacto recupera novo fôlego com o “Contacto”, de 1997, na senda do livro do famosíssimo Carl Sagan (1985).

Nada a fazer. Os extraterrestres tinham voltado a ser magnificamente maus em Alien (Alien, o oitavo passageiro), de Ridley Scott. Fica fora do nosso objeto, mas inegavelmente dos anos 90 em diante a cultura popular vira a sua atenção para os extraterrestres violentos (“O Dia de Independência”, de 1996), ainda que cómicos (“Marte ataca!”, do mesmo ano). Passam a ser sinónimo de todas as conspirações e sistemáticos raptos, com fundamentais referências a Roswell, à Área 51 e assim por diante.

Haveria vários exemplos a registar (“Men in Black”, com várias sequelas desde o original de 1997, “Sinais” (2002), mais uma “Guerra dos Mundos” (2005), o bem disposto “Paul” e “Super 8” ambos de 2011), mas conspiração e raptos conduz-nos necessariamente a outro momento único, agora nas séries televisivas: “Os ficheiros secretos” (X Files), que perduram praticamente uma década, entre 1993 e 2002 (em rigor, 1993–2002, 2016 e 2018).

Desde que OVNI e extraterrestres se tornaram pop culture, o difícil é encontrar uma séria televisiva que não encaixe, algures, pelo menos um episódio sobre o tema. Há listagens que indicam umas 50 séries, sobre os mais variados temas, que não resistiram a este pecadilho. Isto antes de no streaming as séries ficcionais se terem tornado monotemáticas ou uma mesma e única história contada em capítulos.

Do Seinfeld ao Garfield, dos The Simpson ao South Park, sem esquecer MacGyver, Miami Vice e Walker, Texas Ranger. E até os The Dukes of Hazzard (Os 3 Duques), as Charlie’s Angels (Os Anjos de Charlie) e a Lassie (com dois episódios listados). Há episódios ovniológicos, literalmente para todos os gostos.

Merecem referência à parte, pela sua relevância particular para esta ordem de mistérios, The Twilight Zone (A Quinta Dimensão) (1959 – 1964, 1985 – 1989, 2002 – 2003 e 2019 – 2020), The Outer Limits (Os Limites do Terror) (1963 – 1965, 1995 – 2002) e o delicodoce Roswell (1999–2002), neste caso pela sua filiação na visão conspirativa que caracteriza a viragem do século. E juntemos o ALF (1986–1990), pela graça e por ter um extraterrestre como protagonista.

Mas os X files, incluindo o seu spin off em filme, são algo à parte, um marco cultural em si próprio, com as indeléveis assinaturas de que queremos acreditar e que a verdade está algures, aí fora. Muito marcados – talvez demais, o que, juntamente com os chumaços nos casacos e com as gravatas, torna a série muito datada – pela intensa fase das abduções e da conspiração, os X Files têm de toda a forma a virtude de recuperarem uma visão transversal do insólito, herdado de The Twilight Zone (e, já agora, de “O Livros dos Danados”, de Charles Fort…), com um enfoque quase perfeito na tensão/fusão entre a crença de Mulder e o racionalismo científico de Scully. Afinal os gémeos siameses que habitam o cérebro da maior parte dos investigadores de fenómenos insólitos.

Últimas notas para a música, ou não fosse essa a forma que os extraterrestres de Spielberg encontraram para facilitar o contacto nos Close Encounters.

Claro que Ziggy Stardust (aliás David Bowie) tinha as suas aranhas marcianas (The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum de estúdio de 1972). Também há que lembrar os bastante mais pesados UFO, banda britânica constituída em 1969 e que, com vários intervalos pelo meio, ainda teima em estar presente. E Sufjan Stevens, em Illinois – Come on Feel the Illinoise (2005), que começa o disco com a faixa “Concerning the UFO sighting near Highland, Illinois”.

Exemplos não faltam, de OVNI e extraterrestres na cultura popular musical.

Mas para mim o exemplar mais extraordinário do cruzamento entre extraterrestres e a música, ainda que menos recordado pela maior parte do público, é mesmo o soberbo “The Gospel According to the Meninblack” – O Evangelho Segundo os Homens-de-Negro – dos Stranglers. Com lugar cativo na minha playlist desde 1981.

Banda sonora, enquanto continuamos a olhar o céu, à espera de mistérios.

Autor: 

Pedro Basto de Almeida

Blog do autor: associacaogifi.pt