Este texto é, somente, uma introdução à mitologia de Intenções Comestíveis: ou Nova Tábua de Cebes, banda desenhada escrita por mim e desenhada por Filipe Abranches, publicada no terceiro número da revista Umbra (2021). Embora recente, é já um dos meus trabalhos preferidos.
O tema desta história é o Apocalipse: ou seja, a revelação do fim do tempo e o reinício do Paraíso, que fora interrompido pela Queda.

Escrito no século II, por um anónimo autor de cultura helénica, o opúsculo Pinax (tábua ou prancha, em grego) foi, curiosamente, objecto de grande difusão no período que antecedeu a desintegração do Império Romano: traduzido para latim, foi, nessa altura, intitulado Tabula Cebetis (Tábua de Cebes), segundo a ideia errada de que seria uma obra do filósofo grego Cebes Tebano (séc. V a. C.). Redigido em forma de diálogo, o texto consiste numa observação ética sobre o significado da vida humana, tendo como principal elemento alegórico uma montanha escarpada, cujo cume é de difícil acesso, por um único caminho correcto, somente alcançável pelos mais sábios — embora, neste aspecto, a sabedoria seja a de viver uma vida virtuosa, em vez da falsa sabedoria, cheia de vícios, que leva à dispersão e à escolha de caminhos errados.

Ao longo da época medieval e no desenrolar da época moderna, a Tábua de Cebes nunca deixou de ser um dos textos mais glosados e popularizados pelos tratadistas e teólogos mais moralistas, tanto católicos como protestantes.

Para Intenções Comestíveis: ou Nova Tábua de Cebes, empreguei a imagem de uma montanha escarpada, cujo cume é de difícil acesso, como alegoria principal da história: a narrativa desenvolve-se numa espécie de futuro próximo, em que uma catástrofe desconhecida — apelidada Desabarbárie pelas personagens — transformou, irremediavelmente, a natureza do mundo, sendo um dos efeitos mais visíveis a inexistência de elevações naturais ou estruturas verticais (montanhas ou prédios altos, por exemplo). Outro efeito da catástrofe é a impotência generalizada que afecta a população masculina (acometida de disúria e disfunção eréctil), resultando em diversos problemas de saúde e estagnação social. É, por conseguinte, uma sociedade fadada a viver junto ao chão e condenada a desaparecer. A fronteira entre corpos humanos arruinados e a ruína urbana e institucional é cada vez mais ténue.

Nesse ambiente, algumas comunidades juntam-se em volta de crenças ritualísticas bizarras, que têm como objectivo a restauração do mundo. Na história, seguimos, durante algum tempo, um desses grupos milenaristas, os Montanheiros: obcecados com a construção de montanhas, juntam-se em grande número para erguer estruturas verticais em pedra, na esperança que a reintrodução de montanhas na paisagem reverta a Desabarbárie e tudo regresse ao normal.

O mundo desta Nova Tábua de Cebes é governado de maneira mais ou menos autoritária, mais ou menos caótica e, de modo geral, excepto as seitas, como a dos Montanheiros, os indivíduos parecem resignados com esse estado de coisas. O protagonista desta história, um empresário milionário, também é obcecado por montanhas, mas, ao contrário dos Montanheiros, que movem grandes rochas para erguer montanhas artificiais, quer encontrar a última montanha existente — que, supostamente, terá ficado intacta depois da Desabarbárie. A aventura em busca da última montanha existente — a montanha escarpada desta Nova Tábua de Cebes —, demanda na qual o milionário investe todo o tempo e fortuna, será, em Intenções Comestíveis: ou Nova Tábua de Cebes, a reacção em cadeia que espoletará o apocalipse, o fim do tempo — evento do qual a Desabarbárie foi, apenas, a antecâmara.

Espero que esta banda desenhada, escrita por mim e desenhada por Filipe Abranches e publicada em 2021 no quarto número da revista Umbra, capte o gosto dos leitores brasileiros, ficando a promessa de eu escrever um comentário mais longo em que desenvolva e explore com maior profundidade a mitologia e referências desta história.
Obrigado e boa leitura.
David Soares
Lisboa, Setembro de 2024.
Blog do Autor:
cadernosdedaath.blogspot.com