
A história “Caranguejo Real – O Detective Paranormal Francês”, de Réza Benhadj, que faz parte do quarto número da Umbra, levou-me a questionar aos meus botões: porque é que a ficção científica gosta tanto de dar as mãos ao universo noir?
As quase 30 páginas da banda desenhada apresentam-nos o detective, com a gabardine e o chapéu típicos do vestuário que a cultura popular nos fez associar de imediato a esta profissão, e uma espécie de femme fatale, cujo corte de cabelo faz lembrar o de Louise Brooks, aquele estilo muito em voga nos anos 20 do século passado. Há paranormalidades, como promete o título, numa história com um traço realista, que associa o mistério a várias referências do cinema noir. Aliás, a própria revista, na contracapa, define a BD de Benhadj como a criação de “um mundo em que um argumento de William Peter Blatty acabaria realizado por Jean-Pierre Melville”.
Mas “Caranguejo Real” é, na verdade, uma história noir fora do tempo. Ou seja, está temporalmente distante dos anos 30, 40 e 50, em que o cinema americano disparou centenas de filmes muitas vezes parcos em orçamento mas ricos em ideias extraordinárias, uma colheita sem regras, mas em que os frutos partilhavam conceitos comuns, e que levou à criação, pela crítica francesa, do termo “film noir”. Esta BD é, em vez disso, uma história “neo-noir”.
O próprio Melville não era um estilista “puro” do noir. Tal como vários cineastas que trouxeram algumas obras marcantes nas décadas de 60 e 70, enquadra-se mais nessa ideia de “neo-noir”: uma fusão das características do tal cinema negro americano mas associadas à modernidade, quer seja pelo estilo da narrativa, mais desafiante e menos convencional, ou pelos temas que trata, pelos desempenhos dos actores, ou pelo simples facto do tempo da história ser o da contemporaneidade, podendo juntar anacronicamente chapéus e gabardines dos anos 40 aos automóveis do ano em que o filme em si foi rodado, ou a um cenário futurista. Como no “Alphaville” de Jean-Luc Godard: aqui temos o combo entre a estética clássica, a ficção científica distópica e uma linguagem que dá a volta às convenções e cria uma outra maneira de contar uma história, própria de uma era de tantas revoluções como a das novas vagas cinematográficas.
É interessante explorar tanto o universo do noir como do neo-noir, no cinema e também nos romances e na BD. À medida que novas gerações se apaixonam por esse universo povoado por histórias de mistério mais ou menos rocambolescas, onde nem sempre a resolução é o que mais importa, vão-se afastando cada vez mais do “material de origem” (os filmes americanos, alguns deles já quase nonagenários, realizados por vezes por autores europeus que fugiram para Hollywood e que com eles trouxeram as vanguardas de outros países) e dando outras coisas. Mas alguns elementos mantêm-se, não só as roupas estilosas e as personagens retorcidas.
E isso leva-me à resposta àquela pergunta: uma característica que o noir e a ficção científica têm em comum é uma certa melancolia. As histórias sci-fi gostam, em muitos casos, de trazer um olhar melancólico. Olhemos um clássico incontornável como “Blade Runner”. A cada revisitação que faço a este filme de Ridley Scott, mais me comovo com o dilema existencial que a narrativa coloca: os andróides fugitivos estão numa corrida contra o tempo para viverem mais um pouco. A aceitação do seu “tempo para morrer” não só criou uma das cenas mais belas do cinema, mas uma das mais tristes. O livro que inspirou o filme, “Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?” de Philip K. Dick, é igualmente interessante na abordagem que faz à mesma história, talvez mais clássica no detectivismo do protagonista. O grande triunfo de Scott foi salientar, em imagens, essa luta interna dos andróides, mas também a do detective que, no fundo, pode ter dúvidas em relação à sua própria identidade.
Esse aspecto melancólico de “Blade Runner”, para o qual contribuiu imensamente a banda sonora de Vangelis (aquele tema romântico está a passar na minha cabeça enquanto escrevo estas linhas), é talvez o elemento fulcral do mundo noir que devemos ter em conta. Há outros, claro: a junção de elementos futuristas com códigos do passado (as gabardines e chapéus, os ambientes soturnos, e a versão de cinema tem ainda aquela voz off que Harrison Ford fez contrariado, por não acreditar na ideia), o desenrolar das peripécias, os métodos da investigação.
Mas o que mais fica da experiência é a carga existencial. Tal como o detective paranormal da história de Benhadj, Rick Deckard tem muito que se lhe diga. A personagem do filme esconde algumas mágoas e questionamentos: não são eles, afinal, os do humano num mundo cada vez mais tecnológico, mas também as interrogações de um homem na grande cidade, entre personagens duvidosas e caminhos incertos, como acontece na vida mundana?
A ficção científica serve para falar do nosso presente através de mundos mais ou menos distantes, temporal e geograficamente falando. As histórias são frequentemente invadidas por um sentimento de perplexidade, receio, cinismo, ou até um conformismo perante as regras do “jogo”. A sensação de melancolia do mundo noir é semelhante às histórias de naves espaciais ou de viagens no tempo: no fim de contas, sempre ficamos com a dúvida, o medo, a incerteza das consequências dos nossos actos. Tal como os monólogos interiores de Philip Marlowe nos romances de Raymond Chandler, também o futuro (ou a visão do futuro que um autor partilha num determinado tempo) pode ser feito de contrariedades, desesperos, mas também uma inusitada esperança e pequenos prazeres.
Por mais pistas visuais que possamos encontrar da influência do noir no neo-noir, nas histórias de sci-fi é mais interessante explorar as vertentes psicológicas associados aos clichés dessa espécie de género cinematográfico e literário. Antologias como a Umbra permitem-nos contactar com diversos olhares à volta de temas mais ou menos batidos da ficção científica. Em poucas páginas podem-se propor grandes mundos. A acompanhar a leitura, não fica nada mal aquela tal banda sonora de Vangelis…
R.A.S.
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